Tecnologia

Plantio com variedades modernas minimiza impacto da seca

As usinas que mantêm investimentos no canavial devem ter bons resultados nesta safra

Ricardo Bendzius – engenheiro agrônomo e diretor de marketing do CTC

As cotações internacionais das principais commodities agrícolas exportadas pelo Brasil seguiram em elevado patamar e fecharam o primeiro trimestre com médias superiores às do mesmo período nos últimos anos, de acordo com cálculos do Valor Data.

Os contratos futuros de entrega da soja em grão, carro-chefe do agronegócio brasileiro, subiram 8,91% nos três primeiros meses de 2021, acumulando valorização de 60,51% em 12 meses. E fecharam o primeiro trimestre com preço médio de US$ 13,8780 por bushel, 54,2% superior ao de igual intervalo do ano passado. É a maior média para um primeiro trimestre desde 2013.

Caminhando juntos em Nova York, açúcar e café, cujas produções e exportações são encabeçadas pelo Brasil -onde adversidades climáticas tendem a prejudicar a oferta deste ano – e que sofrem particular influência da relação entre dólar e real, engrossam o coro altista. No mercado de açúcar, os contratos subiram 0,61% no primeiro trimestre e acumularam alta de 40,67% em 12 meses. A média trimestral atingiu 15,54 centavos de dólar por libra-peso, 15,46% maior que verificada entre janeiro e março de 2020 e a maior alta para o intervalo desde 2017.

Aumentar a área de plantio

A evolução da produtividade agrícola do setor sucroenergético brasileiro está intimamente ligado a renovação dos canaviais com variedades modernas. No início da década de 2010, dado o nível de endividamento, as usinas cortaram investimentos em tratos culturais para liberar caixa para amortização e pagamentos dos serviços da dívida. Diante dessa situação e somadas às adversidades climáticas, observou-se uma redução da produtividade agrícola e aumento da ociosidade industrial, levando a uma deterioração da rentabilidade e da geração de fluxo de caixa. 

Nosso setor sucroenergético e um setor intensivo em capital e que depende fortemente do da manutenção (plantio de cana; manutenção de entressafra – tanto agrícola quando industrial; e tratos culturais). Diante das dificuldades econômico-financeiras houve uma retração do CAPEX de manutenção e, por conseguinte, menos recursos foram direcionados para o canavial, com destaque para adubação, variedades modernas, controle de pragas e renovação do canavial. O reflexo dessa situação impactou na produtividade dos canaviais brasileiros, a qual praticamente permaneceu estagnada durante a década (2010-2020), apesar da disponibilidade de novas tecnologias, em especial variedades modernas.

Considerando-se que a cultura da cana-de-açúcar, como outra qualquer, é altamente dependente das condições climáticas, essas se tornam fundamentais, juntamente com as características da variedade e do solo, para definir os níveis de produtividade a ser alcançado. Visto que as variações entre as variedades e na textura, estrutura e fertilidade dos solos são menores do que as observadas para as condições meteorológicas, a variabilidade sazonal e interanual da produtividade dos canaviais é, basicamente, a resultante dos impactos das variações do clima, especialmente da chuva e do déficit hídrico, resultante do balanço hídrico das culturas. 

Ao longo de 2020, as condições meteorológicas em toda a região Centro Sul do Brasil foram bastante atípicas, com as chuvas ficando abaixo do normal em praticamente
todos os meses do ano, o que resultou em impactos nas lavouras de cana, afetando o crescimento e a produtividade em várias regiões. De modo a entender de modo mais específico quais foram os impactos das condições meteorológicas de 2020 nos canaviais do Centro-Sul do Brasil, este estudo avaliou as condições agro meteorológicas de 24 regiões produtoras, concentradas no estado de São Paulo. 

O quadro desfavorável do ponto de vista climático em 2020 afetou a produtividade dos canaviais, com poucas exceções, onde, apesar da seca, a produtividade ficou acima da média histórica. As quebras médias de produtividade da cana foram da ordem de 7,9% para a safra. Para os diferentes momentos da safra, as perdas foram de: 1,5% para as canas de início da safra (abril a junho); 6.0% para as canas de meio de safra (jul a ago) e de 14,1% para as canas de final de safra (setembro-novembro) na média da região Centro Sul.

Mas toda regra tem sua exceção, vários grupos agrícolas que estavam capitalizados e conseguiram manter seu planejamento de plantio, obtiveram bons resultados para o setor nesta safra 2020/21 que se encerrou agora em março 2021. O impacto da seca foi minimizado pela renovação dos canaviais e o plantio com variedades modernas.

Na cana, primeira quinzena de março, a moagem de cana-de-açúcar na região Centro-Sul totalizou apenas 1,67 milhão de toneladas, de acordo com dados da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar). O fim do ciclo 2020/21, com uma moagem acumulada de 600,47 milhões de toneladas. A pior seca nos últimos 40 anos não provocou uma quebra a produtividade média, demonstrando avanços pela terceira temporada consecutiva, de crescimento de 2,1% em produtividade, alcançando TCH médio de 78 ton/ha.

O ganho de produtividade mais significativo aconteceu na cana de 12 meses, enquanto a queda mais expressiva foi nos canaviais de terceiro corte. A taxa de renovação deverá ficar entre 12% e 13% no fim da temporada, com 1.176 k/ha , pela última estimativa da Conab realizada em dezembro.

Resumindo os plantios em 2018 e 2019 com variedades modernas, minimizaram este problema, o que foi o amortecedor de um potencial quebra nesta safra que se encerrou.

Por que não surfar a onda de preços?

A observação de preços excepcionais, em especial para o açúcar, não deveria estimular um avanço e expansão do plantio de cana-de-açúcar? Quais usinas surfarão nessa onda positiva de preços do setor sucroenergético? A resposta para ambas as questões está interligada, sendo necessário relembrar que:

>Na safra 2020/2021, o que minimizou o impacto da seca foi a renovação de plantio com variedades modernas, isto é, os plantios realizados em 2018 e 2019 com variedades modernas suavizaram o problema;

>As usinas que têm mantido os investimentos no canavial, com bons níveis de tecnologia e manejo e, por conseguinte, com bons níveis de produtividade deverão reportar uma excelente safra, em especial com a geração de um fluxo de caixa livre positivo.

Cada vez mais fica evidente que a robustez e geração de caixa das empresas deste setor estarão associadas a operações mais eficientes e custos de produção mais baixos. No entanto, sabe-se que os custos agrícolas são o principal desafio do setor, afinal o rendimento do canavial, em t ATR/ha, está abaixo do potencial e da própria média histórica do setor. Portanto, este não seria o momento ideal para reverter essa situação e surfar essa onda positiva de preços?


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