Produção

O que esperar da safra 2021/22

O atraso dos canaviais em muitas regiões é o maior e mais extenso já visto nos últimos anos



Nilceu Piffer Cardozo – Agrônomo e Consultor Associado Canaplan

A safra 2020/21 foi marcada por altos e baixos, otimismo e pessimismo, muitos desafios, porém com um final de muito sucesso. Isso mesmo, sucesso: talvez sequer o mais otimista dos produtores imaginasse que, ao final de um ano marcado por uma pandemia de impactos globais, seca intensa e escalada dos custos, se chegaria ao melhor, isso mesmo, ao melhor resultado da história do setor. Simplesmente, a maior produção de açúcar da já vista no país que, até o momento alcança, 38,5 milhões de toneladas e a terceira maior produção de etanol, com 27,8 milhões de m3 (UNICADATA, 2021), excluída o etanol originado de milho.

O sucesso de 2020/21 acaba por desviar os olhares da safra atual, 2021/22. Apesar do alívio pelo bom resultado, há preocupações sérias em relação ao desempenho da próxima safra, que já traria, naturalmente, o ‘peso’ de, ao menos, se aproximar dos resultados obtidos no ciclo anterior. Se o clima seco durante 2020 favoreceu positivamente o ritmo de moagem e a obtenção e manutenção de elevados teores de sacarose, também gerou inegáveis impactos ao próximo ciclo. A prolongada restrição hídrica afetou intensamente o desenvolvimento dos canaviais colhidos e plantados até junho, com ocorrência de encurtamento dos entrenós e, até mesmo, morte de perfilhos já formados. Canaviais colhidos entre julho e setembro sofreram em sua brotação inicial: irregular, com baixo perfilhamento e crescimento lento, apesar de apresentarem menor desvio quando comparados as colheitas dos meses iniciais. Além disso, a ocorrência de incêndios em palhada já colhida foi muito intensa durante 2020, o que resultou em reinício do desenvolvimento das soqueiras, com o agravante de aumentar a ocorrência de falhas. Somente os canaviais mais tardios, colhidos a partir de outubro e, portanto, mais próximo ao retorno das chuvas, apresentaram menor impacto. Contudo, sua participação na próxima é muito restrita: além da produtividade naturalmente menor, sua área em relação ao total a ser colhido também é limitada (CANAPLAN, 2021). Além disso, seu crescimento é dependente do verão que, infelizmente, também não foi dos melhores.


Condições climáticas durante a formação dos canaviais

A redução do volume e a extensão do período sem chuvas foi o grande ponto de destaque durante 2020. Se considerado o Centro-Sul brasileiro, a média de anual em 2020 foi de 1116 mm, contra um histórico de 1380. Tal valor, por si só, já seria alarmante quando se pensa nos impactos em relação a safra 2021/22. Porém, se considerada a precipitação de formação, ou seja, aquela ocorrida após o plantio ou a colheita realizada durante a safra 2020/21, o cenário se torna ainda mais crítico: são apenas 882 mm acumulados entre abril/20 e março/21, na média do Centro-Sul, contra 1336 em 2020/21 e um histórico de 1370. Além da redução, o momento foi crucial: a redução da precipitação entre agosto e novembro (especialmente entre outubro e novembro) ocorreu quando os dias se tornam mais longos, com maior incidência de radiação solar e, portanto, maiores temperaturas. Com isso, as taxas de evapotranspiração alcançaram valores muito elevados e impactaram o desenvolvimento dos canaviais de forma generalizada, até mesmo em regiões onde houve chuva entre agosto (sul de SP, norte do Paraná e MS) e outubro (triângulo mineiro e parte do sul de Goiás), ocorrência importantes, porém pontuais e de alta variabilidade espacial. A precipitação foi reduzida não apenas a primavera, mas também durante o verão, com intensa variabilidade espacial, o que tornou questionável a grande esperança de recuperação e coloca o setor em grande tensão no início de 2021/22.

Precipitação acumulada: formação da safra

Efeitos do déficit hídrico na brotação inicial e desenvolvimento dos canaviais

A água é o principal ‘insumo’ na produção agrícola e sua baixa disponibilidade reduz a produtividade, mesmo nos mais fértil dos solos. Independentemente da cultura, a água é o principal fator a limitar a máxima expressão do potencial produtivo, pois afeta o crescimento das plantas, reduz a produtividade agrícola e resulta em baixa eficiência do próprio uso de fertilizantes. Nesse sentido, é muito comum ouvir relatos sobre os efeitos do déficit hídrico na cana-de-açúcar, sobre variedades mais tolerantes ou de técnicas de manejo, seja via época colheita ou com uso de irrigação, que podem levar a redução dos impactos causados por tal ocorrência. São muitos os trabalhos que abordam os impactos negativos do déficit hídrico na produtividade e qualidade da cana-de-açúcar (Ramesh, 2000; Silva et al., 2008; Boaretto et al., 2014), uma cultura que requer grandes de água para atingir sua produção máxima, variando de 1400 mm a mais de 2000 mm em algumas regiões (Brauman e Viart, 2016). Não por acaso, os colmos são compostos por cerca de 70 a 75% do seu peso fresco: mais do que reservatórios de ‘açúcar’, são reservatórios de água, que será utilizada pela planta se necessário.

Períodos longos de seca nas lavouras de cana-de-açúcar podem retardar significativamente o crescimento da cultura, criando um descompasso entre a idade cronológica e o grau de desenvolvimento esperado para aquele momento. O resultado são impactos significativos na produtividade dos colmos e na própria qualidade da matéria-prima. O estresse hídrico tem maior efeito sobre a expansão do crescimento do limbo foliar do que a sua massa seca, afetando negativamente o crescimento da parte aérea, sobretudo a produção de folhas (Inman-Bamber, 2004). Sua continuidade leva a alterações morfológicas que visam aumentar a captação de água no solo (enraizamento e formação de pelos radiculares), o armazenamento (alteração do balanço osmótico, p.e.) e redução da superfície evapotranspirativa. Lucchesi (2008) menciona sob efeitos do déficit hídrico são comuns variedades que tendem a enrolar suas folhas, alterando a exposição do limbo foliar à incidência de radiação solar, amenizando a temperatura do limbo foliar, o que pode reduzir de 10 a 20% a taxa de transpiração (padrão comum de se observar na CTC9001, p.e.). Entretanto, tais alterações morfofisiológicas são paliativas, eficazes em condições adversas esporádicas ou de déficit hídrico inicial que, quando prolongado levará a decréscimos significativos na produção de fitomassa (MACHADO et al., 2009). No extremo, é acelerada a senescência foliar (e da própria planta) com redução na interceptação da radiação, nas taxas fotossintética e na própria eficiência do uso de água (Inman-Bamber e Smith, 2005; Silva et al., 2008; Zingaretti et al., 2014).

Vários estudos já foram realizados para comparar variedades de cana-de-açúcar com objetivo de identificar aquelas tolerantes à seca (Machado et al., 2009; Boaretto et al., 2014). A tolerância à seca é um processo complexo que varia de acordo com a severidade do estresse, o ambiente de produção, o manejo agrícola, eficiência do uso da água da variedade e, finalmente a idade da planta e seu de desenvolvimento. Além disso, outros estresses abióticos (solo raso, impedimento químico etc.) ou bióticos (pragas, por exemplo) podem ocorrer simultaneamente e tornar a restrição hídrica ainda mais intensa para as plantas. Assim sendo, o tema é amplo e complexo, pois envolve não apenas as condições ambientais, mas também as particularidades do sistema produtivo da cultura: um ciclo longo, com exposição a variações intensas da oferta hídrica ao longo do ciclo e que ganha ainda mais complexidade pela extensa janela de plantio e colheita. Essa condição resulta, no campo, em uma infinidade de condições de desenvolvimento dos canaviais, as quais apresentam outras variações decorrentes das características de crescimento das variedades, do ambiente de produção e das práticas de manejo agrícola adotadas. Esse mosaico de condições de desenvolvimento resulta em plantas com diferentes respostas ao déficit hídrico acumulado ao longo da safra e os efeitos desse variam não apenas em função de sua intensidade, mas também da fase de desenvolvimento em que ocorre (Soares et al.,2004; Ramesh, 2000). Não raro, uma variedade é classificada como ‘rústica’ por sua rápida brotação inicial mesmo em condições de seca, porém se mostra com altamente susceptível aos efeitos do déficit na fase adulta. Essa condição remete a interação déficit hídrico e estágio de desenvolvimento e a própria definição do que seria a tolerância a seca: iniciar o desenvolvimento ou manter, na fase adulta, por mais tempo a integridade da matéria-prima em condições deletérias.

Rosenfeld (1989) estudou o período crítico de deficiência hídrica para cana planta em diferentes fases de crescimento e épocas do ano e concluiu que em todas as fases da cultura são possíveis reduções no crescimento e desenvolvimento. Contudo, existem momentos mais críticos em que as perdas de produtividade são maiores e o grau de uma possível recuperação menor: dado o longo ciclo da cultura, pelo menos 12 meses, diferentes combinações climáticas tendem a ocorrer (como chuvas de outono, por exemplo) e permitir recuperação, muitas vezes, inesperada dos canaviais. Mas essa ‘recuperação’ é extremamente dependente do ‘histórico’ que a planta traz consigo: muitas vezes, o déficit hídrico é tão intenso que causa não apenas atraso no desenvolvimento, mas também aumento de falhas de plantio/soqueira, alterações morfológicas (‘encarratelamento’/enfezamento) entre outros aspectos negativos.

De forma geral, as fases iniciais de desenvolvimento da cultura, são as que apresentam menor impacto em termos de déficit hídrico. O crescimento inicial da cana-de-açúcar envolve a brotação e o perfilhamento inicial, eventos críticos no ciclo da cultura que dependem da concentração de água e nutrientes no colmo, idade da gema, umidade do solo e desenvolvimento do sistema radicular, que sofre influência das práticas agrícolas (compactação do solo, controle de pragas etc.). Inman-Bamber e Smith (2005) mencionam que a brotação é influenciada pelo conteúdo de água no solo que, em excesso, pode levar a condições de anaerobiose, afetando a degradação das reservas do tolete, enquanto teores muito baixos limitam o desenvolvimento do sistema radicular, afetando a absorção de água e o estabelecimento inicial. Cenário críticos de umidade resultam em atraso no desenvolvimento, menor perfilhamento inicial, irregularidade entre o desenvolvimento dos perfilhos e, em casos mais críticos, aumento de falhas de stand no plantio e nas soqueiras.

Todavia, apesar da umidade do solo ser fundamental nessa fase e gerar impactos negativos quando restrita, a necessidade hídrica requerida pelas plantas, nesse momento, é menor do que nas fases posteriores de desenvolvimento da cultura. Por isso, mesmo diante de déficit hídrico, muitas vezes intenso, ainda são possíveis certas compensações futuras. Robertson et al. (1999) mostraram menores impactos do déficit hídrico na produção de biomassa de cana-de-açúcar quando ocorrido no início da fase de perfilhamento, antes do início do alongamento dos entrenós. Há um crescimento compensatório da cultura quando submetidas à irrigação após a sua ocorrência. Assim, os efeitos deletérios do déficit hídrico podem ser, dentro de determinados limites óbvios, compensados pelo aumento na taxa de perfilhamento e aparecimento de novas folhas se a planta for exposta a condições hídricas satisfatórias na sequência de seu desenvolvimento. Nesse sentido, Inman-Bamber (1994) mostrou que plantas de cana-de-açúcar submetidas à irrigação após a ocorrência de déficit hídrico, apresentaram aumento em sua taxa de crescimento dos colmos em até 1,6 vezes em comparação às plantas não submetidas à restrição hídrica.

Entretanto, o déficit hídrico imposto quando a cultura se encontra na fase de crescimento rápido (alongamento dos entrenós) promoverá impactos mais deletérios à produtividade final de colmos e de açúcar por tonelada de cana. São vários os trabalhos que sugerem que o período entre 90 a 240 dias de desenvolvimento como os mais críticos em relação aos efeitos deletérios do déficit hídrico em cana (Ramesh, 2000; Rosenfeld, 1989). Esse é o período mais crítico no que se refere aos efeitos do déficit hídrico na produtividade, pois é quando as plantas apresentam grande área foliar e necessitam de maior quantidade de água para a realização das trocas gasosas com a atmosfera (SILVA et al., 2011). A ocorrência de déficit hídrico durante esta fase afeta adversamente a expressão gênica e proteica, características morfológicas, fisiológicas e (Silva et al., 2008). Nesta fase, há intensa redução das taxas fotossintéticas, que impactam negativamente o crescimento do colmo, tanto em termos de comprimento dos entrenós como em seu diâmetro. A perda intensa de água leva a redução da densidade (isoporização) e, em casos extremos, perda da dominância apical, ocorrência de brotações laterais e, até mesmo, a morte do perfilho já adulto (Machado et al., 2009). Essa ocorrência é muito comum em plantios de 18 meses e colheitas realizadas entre janeiro e abril em regiões de clima mais quente e seco, como muitas regiões do noroeste de São Paulo, Minas Gerais e Goiás. Nesse sentido, variedades que apresentam rápido desenvolvimento inicial tendem a ser a mais impactadas, não por uma característica de menor rusticidade, mas por alcançarem um período de maior demanda hídrica mais rapidamente. E a extensão da seca até novembro de 2020, em grande parte da região Centro-Sul fez com que esse efeito atingisse níveis que não eram vistos há muitos anos e em regiões onde tradicionalmente não são observados.

Só o clima de 2020 é o problema?

O impacto das condições climáticas vigentes ao longo de 2020 na safra 2021/22 é inegável, haja visto a diferença dos volumes de precipitação registrados. Apesar de variações regionais, o momento da ocorrência das restrições foram críticas em praticamente todas as regiões do Centro-Sul brasileiro, o que torna o fator ‘clima’ realmente importante e democraticamente problemático para a produção de cana-de-açúcar no próximo ciclo. O atraso dos canaviais é inegável e, em muitas regiões, o maior já visto em mais de 20 anos. Soma-se a isso a debilidade de muitas soqueiras, prejudicadas pela ocorrência de incêndios e com alta concorrência de plantas daninhas e ocorrência de pragas fora do ‘ritmo natural’ esperado: com o canavial atrasado, o calendário de desenvolvimento, ocorrência de pragas/doenças e necessidade de controle mudou e, infelizmente, tende a se estender por mais tempo do que o comumente esperado. Por mais esforço que seja dedicado a superar essa condição há limites, limites técnicos, econômicos, vegetais e, principalmente, de tempo.

A safra se inicia com um abril seco e sem grandes perspectivas de chuva. Os resultados de início já assustam: há relatos de 10, 15, 20% de quebra de produção em relação a 2020/21, que obviamente pode ser pela idade média, mas que confirmam uma tendência preocupante. Mesmo que ocorram chuvas na sequência, fica cada vez mais complicada uma eventual reação. E a grande questão desse momento é: haverá cana em condição de colheita em abril que permita um início normal? É óbvio que haverá canaviais mais desenvolvidos, porém, serão tais canaviais compatíveis com o que se espera deles? Afinal, os canaviais de início são, usualmente, o alicerce da safra em termos de produtividade. O atraso na moagem previsto pela Canaplan em outubro de 2020 se concretizou, porém não foi intensificado (até o momento) pela ocorrência de chuvas. Com isso, a safra tende a acelerar rapidamente ao final de abril e, principalmente, a partir de maio. A qualidade, inicialmente aquém do esperado pelo atraso no desenvolvimento dos canaviais, também deve aumentar rapidamente em um cenário seco. Contudo, também tende a ser penalizada no auge da safra (pico da qualidade) por conta da desidratação excessiva, isoporização e morte de plantas. Assim sendo, o cenário seco que se mantém tende a derrubar rapidamente a produtividade, pois essa não será compensada pelos canaviais de final. Além de sua menor importância percentual, também não houve condições ideais para seu desenvolvimento. Sem dúvida 2021/22 será o maior desafio em muitos anos. É fato que o setor passa um melhor momento em termos de investimento, adoção de novas tecnologias e retorno à boas práticas. Porém o cenário é extremamente crítico e fora dos padrões comuns ao Centro-Sul brasileiro. Como em toda crise, estratégia e equilíbrio serão fundamentais: 2021/22 irá passar, mesmo com todas as dificuldades, mas o setor tem de continuar.

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