Clima

Entrevista – João Castro, agrometeorologista da Climatempo

Volta das chuvas em janeiro, fevereiro e março não vai conseguir reverter os prejuízos, segundo a previsão.

La Niña reduz produtividade dos canaviais em São Paulo.

Por Bruno Blecher, jornalista especializado em agronegócio e meio ambiente.

Depois de um período de irregularidade, que em São Paulo prejudicou principalmente a cana e a laranja, as chuvas voltaram ao Estado no final de dezembro e devem continuar em fevereiro. “Mas o estrago já foi feito”, diz João Castro, agrometeorologista da Climatempo. Em entrevista exclusiva à Ciência da Cana, Castro fala do comportamento do clima nas lavouras nos próximos meses.

Ciência da Cana – Como será o clima na agricultura nos próximos meses?

João Castro – Imagina uma linha que passa pelo sul de Goiás, cortando o Brasil em duas partes. Do sul de Goiás para cima, as frentes frias não vão ser frequentes e as chuvas serão abaixo da média em janeiro e fevereiro em regiões importantes da soja como Mato Grosso e Matopiba. Do sul de Goiás para baixo, os três próximos meses serão bastante chuvosos, no Triângulo Mineiro, Zona da Mata, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Paraná e parte do Rio Grande do Sul. Ou seja, as chuvas serão mais canalizadas para o Centro-Sul.

Ciência da Cana – Isto é consequência do La Niña?

João Castro – La Niña é um fenômeno climático que representa a fase negativa do Enos, o El Niño Oscilação Sul. O El Niño é a fase positiva, quando as temperaturas do Oceano Pacífico e Equatorial estão acima da média por um período específico. Acompanhamos este fenômeno por cinco trimestres seguidos para ver se está mesmo quente. Se estiver meio grau acima da temperatura média é El Niño, que é uma anomalia positiva. Do contrário, é La Niña, a fase negativa.

Mapa Clima Janeiro 2021

Ciência da Cana – Quais são as consequências do La Niña?

João Castro – O La Niña muda o regime de distribuição de chuvas, porque altera a posição das correntes de vento. Os agricultores sabem o que são os chamados rios de vento, principalmente os da região central do Brasil. Os rios de vento são um corredor que está a cerca de 1.500 metros de altura. Os ventos alísios que vêm da Linha do Equador batem na Cordilheira dos Andes e descem, pegando toda a umidade da Amazônia e trazendo as chuvas para o Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Quando há uma perturbação climática, como o El Niño ou a La Niña, a configuração desse vento muda. Aquele vento que desce para o Sul, passa a cortar mais para cima, em Mato Grosso e Goiás. Isso corta um dos elementos importantes que favorecem a chuva no Sul e no Sudeste. Então, no Sul, há uma irregularidade maior da chuva, porque esse rio de vento muda de posição.

Ciência da Cana – A La Niña se caracteriza então pela irregularidade da chuva?

João Castro – A La Niña não causa seca, mas irregularidade na distribuição da chuva. E por quê? Porque os corredores de umidades não se formam com a consistência que deveriam. E tem o problema da posição. No caso da La Niña, eles ficam posicionados mais ao norte. O primeiro sintoma dessa La Niña foi o atraso no início do período chuvoso. No meio de novembro, as chuvas foram irregulares. As chuvas de meados de novembro não foram chuvas para agricultura. Era uma pancada no fim de tarde, no meio da tarde, por conta do calor, e acabava.

Ciência da Cana – A cana foi prejudicada?

João Castro – Eu visitei, no começo de novembro, um amigo em São Pedro, perto de Piracicaba, no interior paulista, e a cana está baixinha, não havia desenvolvido. Naquela época do ano era para estar com quase dois metros de altura. Faltou água e a cana estava sentindo. Para a próxima safra, as usinas e os fornecedores vão ter que fazer um bom planejamento, porque a cana não vai chegar no ponto de colheita com as características bioquímicas desejáveis pela indústria. A cana demorou a se desenvolver porque não teve água o suficiente.

Mapa Clima Fevereiro 2021

Ciência da Cana – A consequência é queda na produtividade?

João Castro – Sim. O alongamento entre os nós ocorre de uma forma muito mais lenta. Você pode não ter uma cana de grande porte com uma boa quantidade de matéria. Uma planta com o caule menor, mais curto, tem uma produtividade menor. A produtividade da cana se dá em toneladas por hectare. As usinas fazem o corte. Só que vão cortar uma cana mais mirrada.

Ciência das Cana – As chuvas voltaram agora em janeiro. Vão conseguir reverter o prejuízo?

João Castro – O estrago já foi feito, principalmente em áreas de renovação de canaviais. Esta cana de renovação precisa de bastante água para brotar e nascer com bastante vigor. Não só a planta nova, como aquela que você cortou, colheu e vai nascer na próxima safra. O desenvolvimento vegetal, se não tem água, é bem mais lento. A qualidade desta cana foi prejudicada. Este ano, como atrasou a regularidade da chuva, muito provavelmente não vai estar com a qualidade que deveria. Provavelmente, ela será destinada para álcool.

Ciência da Cana – Com chuvas abaixo da média em Mato Grosso, a perspectiva de uma nova safra recorde de soja, que havia no início do plantio, não deve se concretizar.

João Castro – Dificilmente. Sem chuvas em janeiro e fevereiro, o enchimento de grãos é prejudicado. Algumas regiões em Mato Grosso já estão colhendo, mas com produtividade mais baixa. A estimativa inicial de supersafra era mais por conta do aumento da área.

Mapa Clima Março 2021
Janeiro 2021 ed1 n1
1 Comentário
  1. Sidney Meneguetti 6 meses ago
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    Excelente fonte de pesquisa. Parabéns!

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