Produtividade

Alicerce do desempenho do setor sucroalcooleiro

Usinas devem readequar as suas estruturas produtivas e se tornar mais resilientes num ambiente bastante desafiador

Haroldo José Torres da Silva – doutor em Economia Aplicada pela ESALQ/USP e Gestor de Projetos do PECEGE

A evolução da produtividade agrícola do setor sucroenergético brasileiro está intimamente ligada ao próprio desempenho econômico do setor. No início da década de 2010, dado o nível de endividamento, as usinas cortaram investimentos em tratos culturais para liberar caixa para amortização e pagamentos dos serviços da dívida. Diante dessa situação e somadas às adversidades climáticas, observou-se uma redução da produtividade agrícola e aumento da ociosidade industrial, levando a uma deterioração da rentabilidade e da geração de fluxo de caixa.

Tem-se um setor intensivo em capital e que depende fortemente do CAPEX de manutenção (plantio de cana; manutenção de entressafra – tanto agrícola quando industrial; e tratos culturais). Diante das dificuldades econômico-financeiras houve uma retração do CAPEX de manutenção e, por conseguinte, menos recursos foram direcionados para o ativo biológico, com destaque para adubação, variedades modernas, controle de pragas e renovação do canavial. O reflexo dessa situação materializou-se na produtividade dos canaviais brasileiros, a qual praticamente permaneceu estagnada durante a década (2010-2020), em oposição ao crescimento da produtividade verificado em outras culturas, tal como grãos.

Na safra 2019/2020, a matéria-prima representou cerca de 75,54% do custo agroindustrial total, isto é, a área agrícola respondeu, em média, por 75,54% dos custos para a produção dos produtos finais (açúcar e etanol). Além disso, em torno de 86%, 75% e 50% dos custos são fixos, respectivamente, nas áreas agrícola, industrial e administrativa. Desta forma, fica evidente que a estrutura de custos do setor sucroenergético brasileiro é predominantemente fixa e agrícola. Se a maior parcela dos custos é fixa e o segmento vem gerando menos produto por área (especificamente, tonelada de ATR por hectare), há um aumento do custo fixo médio, o que explica uma parcela da deterioração dos resultados das usinas brasileiras ao longo da última década.

O custo caixa unitário reflete a alavancagem operacional. Uma maior oferta de matéria-prima – em função do aumento da produtividade agrícola – contribui para uma maior diluição dos custos fixos, por meio de economias de escala. Assim, a robustez e geração de caixa das empresas deste setor estão associadas a bons níveis de produtividade e, por conseguinte, a uma estrutura de baixo custo e operações mais eficientes.

De forma a validar essa questão, a Figura 1 apresenta a relação entre a Margem EBITDA (ajustada pelo CAPEX), como uma proxy para a geração de fluxo de caixa operacional, e a produtividade agrícola (t/ha) na safra 2019/2020. A partir da amostra, foram determinados três grupos, a saber: 

  • Grupo A: Congrega 4 grupos com uma produtividade agrícola média de 102,04 t/ha, e uma margem EBITDA de 19,8%;
  • Grupo B: Congrega 20 grupos com uma produtividade agrícola média de 81 t/ha, e uma margem EBITDA de 8,6%; e
  • Grupo C: Congrega 6 grupos com uma produtividade agrícola média de 58,57 t/ha, e uma margem EBITDA negativa de 9,2%.

Figura 1 – Relação entra a produtividade agrícola (t/ha) e a margem EBITDA1 das usinas do setor sucroenergético na safra 2019/2020.
Fonte: PECEGE
Nota: 1 Margem EBITDA (Earning Before Interests, Taxes, Depreciation and Amortization, em inglês) ajustada pelo CAPEX. Considerou-se o ajuste pelo CAPEX uma vez que o IFRS considera os tratos culturais da cana própria como CAPEX.
A amostra da análise diz respeito à safra 2019/2020 e é composta por 30 grupos agroindustriais. Juntos, os mesmos foram responsáveis pelo processamento de, aproximadamente, 209 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, o que equivale a cerca de 33% da moagem brasileira na safra citada. A fim de construir o gráfico, foram selecionadas as usinas que cumpriram dois requisitos, quais sejam, (i) publicaram suas Demonstrações Financeiras na safra 2019/2020, (ii) estavam presentes no banco de dados de produtividade do PECEGE. No que tange ao segundo requisito, ressalta-se que as fontes de informações foram: (a) o levantamento de custos de produção, realizado pelo PECEGE Projetos, ou, (b) informações públicas, de amplo acesso.

Pode-se dizer que o Grupo A representa as usinas “high tech”, ou seja, aquelas que mantém elevados níveis de investimento no canavial, com o emprego de variedades de cana modernas e mais produtivas, adoções de novas tecnologias e um manejo que preza pela sanidade do canavial. Isso melhorou a disponibilidade de cana e níveis de rentabilidade, impulsionando a geração de fluxo de caixa operacional. Neste caso, tem-se usinas que apresentam um resultado consistente com maior geração operacional de caixa e incremento de margem, explicado principalmente pela melhoria da produtividade, pelas operações mais eficientes e pelos custos de produção mais baixos. O grupo B, por sua vez, congrega o maior número de grupos do setor sucroenergético e representa a média do setor: produtividade em níveis medianos e tímida geração operacional de caixa. Ressalta-se que, muitas vezes, esse caixa operacional não é suficiente para cobertura dos serviços da dívida, – especialmente em um setor altamente endividado – o que pode implicar em resultado líquido negativo. Sob pena de ser eliminado ou absorvido via M&A por outras empresas, o grupo C (“low tech”) deverá realizar um movimento de convergência (catching up), aproveitando-se da recuperação dos preços dos produtos (açúcar e etanol) para retomar os investimentos e reestabelecer a renovação dos canaviais.

Enfatiza-se, no entanto, que a relação de resultado operacional e produtividade é bilateral. Grupos com alta geração operacional de caixa apresentam recursos suficientes – em excesso ao pagamento das despesas financeiras – para aplicação em CAPEX, de forma mais consistente. Por outro lado, as usinas com desempenho operacional negativo não apresentam geração de fluxo de caixa livre da empresa para investimentos no canavial, o que retroalimenta o binômio baixa produtividade e EBITDA ajustado negativo. 

Neste sentido, as usinas do setor sucroenergético brasileiro deverão consolidar iniciativas para readequar as suas estruturas produtivas e se tornar mais resilientes num ambiente bastante desafiador. No entanto, fica evidente que a chave para o sucesso e sobrevivência neste setor, é a manutenção de bons níveis de produtividade agrícola, com ganhos de eficiência e qualidade, a qual deverá ser catalisada por diferentes tecnologias. Esta elevação de produtividade é o vetor fundamental para obtenção de uma geração operacional de caixa suficiente para cobertura do custo de oportunidade do capital (dos credores e dos acionistas). A consecução deste objetivo é o que garante a longevidade dos grupos sucroenergéticos no longo prazo, melhorando a geração de caixa das empresas e o desempenho econômico de todo o setor.

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