Biotecnologia

Açúcar da cana BT é açúcar puro

O produto feito a partir de cana-de-açúcar geneticamente modificada é classificado como substância pura, quimicamente definida

Silvia M. YokoyamaDiretora de Assuntos Regulatórios e Governamentais do CTC – Centro de Tecnologia Canavieira

A resistência a insetos, conferida pela expressão de proteínas Bt (de Bacillus thurigiensis) foi introduzida na cultura da cana-de-açúcar pelo CTC – Centro de Tecnologia Canavieira para auxiliar no manejo da broca da cana. Aprovada em 2017, a variedade CTC20BT foi a primeira cana obtida através da biotecnologia agrícola que entrou em escala comercial, sendo encontrada em diferentes usinas da região Centro-Sul. 

O Brasil é o segundo maior produtor de culturas melhoradas através da biotecnologia, com uma área plantada estimada em 51,8 milhões de hectares na safra 2018/2019. Os índices de adoção dessa tecnologia nos nossos campos estão na ordem de 90% do total da área cultivada com soja e milho, culturas em que se observou os maiores benefícios aos produtores.

A introdução da biotecnologia durante o final dos anos 1990 e início de 2000 foi acompanhada de discussões intensas pela cadeia de processamento desses grãos. Por ser uma tecnologia nova, procuravam informação sobre as características e avaliações de segurança conduzidos por pesquisadores renomados e agências reguladoras para levar o esclarecimento necessário aos seus usuários. 

A percepção de risco associado a biotecnologia agrícola, tornou a avaliação de segurança que precede qualquer aprovação comercial mais rigorosa do que aquela aplicada às demais tecnologias de melhoramento de plantas. Uma extensa lista de estudos que demonstrem a segurança ambiental e para consumo humano e ou animal é exigida pelas autoridades para cada evento de modificação genética que se pretenda comercializar.

Os derivados utilizados na alimentação

As plantas de soja e milho dão origem a grãos de soja e de milho que são ricos em diferentes tipos de nutrientes e por isso amplamente comercializados por todo o globo nos mais diferentes formatos –  grãos in natura até ingredientes processados em forma de farelos proteicos, óleos, e outros derivados mais refinados como a lecitina e o amido modificado.

O processo de avaliação de segurança desses alimentos deve levar em consideração a forma mais completa de comercialização que é o grão in natura uma vez que os demais derivados podem ser considerados uma fração desses. Quase 3 décadas de comercialização desses grãos e seus derivados têm servido para demonstrar que as avaliações conduzidas têm sido bem sucedidas uma vez que não há episódios adversos relatados por conta do consumo de qualquer produto originado da biotecnologia agrícola.

A planta da cana-de-açúcar é uma cultura bastante eficiente na geração de energia e simples no que diz respeito aos principais derivados comercializados globalmente, que são o açúcar e o etanol. O bagaço é utilizado com muita eficiência na cogeração de energia nas próprias instalações onde são processadas.

O açúcar, o principal derivado da cana-de-açúcar utilizado na alimentação é uma substância extraída da planta com alto grau de pureza e a molécula da sacarose é extremamente simples, quando comparada aos nutrientes presentes nos grãos. 

Substância pura

O açúcar por ser constituído basicamente de sacarose é considerado um ingrediente altamente refinado ou uma substância purificada e permanece idêntico a despeito da variedade de cana que a originou. Dessa forma, o açúcar não sofre qualquer modificação pela biotecnologia aplicada para tornar a planta resistente ao ataque de pragas.

Análises feitas por meio de técnica analíticas modernas possibilitam afirmar que teores de DNA e proteínas da cana Bt não são detectáveis no açúcar pelas metodologias atualmente empregadas. Tal característica associado ao alto grau de pureza desse ingrediente possibilitou que a CTNBio – Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, integrante do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação – qualificasse o açúcar produzido a partir da cana-de-açúcar geneticamente modificada como “substância pura quimicamente definida”. 

Portanto, dado à sua pureza intrínseca, o açúcar produzido a partir de cana-de-açúcar geneticamente modificada é classificado como “substância pura, quimicamente definida”, como definido na Lei 11.105/2005. A deliberação da CTNBio encontra-se no Extrato de Parecer Técnico no. 5837/2018, publicada no Diário Oficial da União, em 28 de março de 2018.

Essas informações vêm sendo levadas desde o início do plantio das variedades de cana resistentes à insetos aos diferentes elos da cadeia produtiva para que possam ser transmitidos aos seus usuários e desta forma, o setor sucroalcooleiro possa adotar a biotecnologia agrícola em seus canaviais e se beneficiar da mesma forma que produtores de outras culturas tem se beneficiados por quase três décadas.

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